terça-feira, 10 de maio de 2011

Existem muitas maneiras

de tentar dizer em vão aquilo que em vão venho tentando dizer...

É aproximando-nos e afastando-se por meio de  jogos entre palavras como este que o escritor Samuel Beckett justifica a matéria dos seus livros, e, discretamente, revela-nos uma ética impessoal. 

Sem qualquer pretensão de universalidade, sem uma razão que a justifique ou qualifique, impossível de ser adjetivada ou substâncializada, sua escrita torna-se a própria necessidade de desdobramento da escrita. É alguma coisa, não sobre alguma coisa, eu diria me intrometendo e invertendo a polaridade  desta acusação outrora feita por ele a Joyce.

Uma escrita que se é sobre alguma coisa esta coisa é a (im)possibilidade de escrever, de dizer,  de narrar, de representar o mundo,  neste mundo que as palavras criaram a partir da sua potência.

Pensamentos desenraizados mantidos unidos e ordenados por necessidade de buscar um encadeamento para tudo o que existe, mas que só aparece nos raros momentos em que a luz do entendimento torna algo visível, frações em possibilidades infinitas. Uma luz tão oblíqua quanto o olhar de qualquer homem que lançada sobre o mundo cria sombras e ambiguidades. Figura e fundo, perspectivas. 

O contraste à exigência de fundamento pelas leis da lógica e  pela ciência  marca o contorno dos limites para o pensamento. A linguagem é, de alguma forma, a moldura de todos eles. Através da linguagem é feita uma conversão desmedida de um universo irrepresentável e ilegível ao todo organizado que é o nosso mundo, conceitos e palavras para coisas, indeterminações, tudo aquilo que não é racional e que, por definição, sem sê-lo não é. 

 É por aí que passa a paz, conhecer os próprios limites.




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