segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mal visto mal dito

(...) Ela emerge na orla dos campos e começa a travessia. Lentamente com passos flutuantes como se perdendo a gravidade. Repentinas paradas e novas partidas relâmpago. Nesse passo anoitecerá antes que ela chegue. Mas o tempo freia o tempo necessário. Abraça sua marcha. Daí de cabo a rabo do trajeto sempre o mesmo crepúsculo...


Samuel Beckett. O despovoador / Mal visto mal dito. Martins Fontes, 2008. p. 47.

... porque nesta narrativa curta em que os espaços são mais amplamente indeterminados à medida que penetrados pelo olhar, diferentes perspectivas que mudam de posição, de pessoa e de distância interminavelmente, e o que sobra além da impessoalidade da linguagem é a insubistancialidade das coisas, opacas e petrificadas, o tempo revela-se em sua máxima potência. Atualização e memória, numa transfiguração tão perfeita que levaria o Marcel de Proust se perder num dos labirintos de Borges sem se dar conta sequer que tivesse ido e voltado a paisagens de outrora, sem ter notado que sem ser notado o tempo....

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